Seixos do Morto

Textos de
Alberto Moreira Ferreira




Ao fim de uma vida
Eu, não sei precisar 
Se longa ou curta
Pequena não terá sido decerto
Encontraram-no
Debaixo da cama
Cansado, de situações, de gente
Deram-lhe palmadas nas costas
E soro fisiológico
Já em cima da cama correu-os
Do tubarão azul, e, da pantera
Cor-de-rosa não havia
Mais nada





Não é por te amar que, me envaideço
Nem por não me quereres que morro
A minha fatalidade não é por nada, é
Talvez seja porque gostava
De ser inteiro e só a dor me tocou






A-ter-
ram na areia: o ar, misógino
Sempre nos seus separadores
Sempre a noite no princípio
E, no fim
Estes pregos são uns covardes
Pois chega de escuridão, de pouca
Vergonha, o dia, o futuro é a flor
Meu amor






Mais um dia da semana do mês do ano. Esta manhã acordei com o barulho de um avião com motor de avioneta, pelo barulho com certeza que era um motor de avioneta e já não deve haver muitos aviões com motores de avionetas. Acordei a pensar que sou mau, no quão mau sou, e nos porquês de não ser bom, bom, é preciso muita coragem para ser-se bom. Não sei se tenho sido muito mau, talvez tenha sido só mau, assusta-me a ideia de algum dia ter sido muito mau. Bom, vou tentar ser bom, eu quero ser bom, e tenho de me esforçar mais, muito mais, e tenho de ser corajoso para ser bom, não chega melhorar, tenho de ser bom, e mesmo assim, não se pense que não sou grato por este, mais um dia, o penúltimo dia desta semana deste mês deste ano, um dia em que fui acordado por um avião com motor de avioneta diria. Já não deve haver muitos aviões com motores de avionetas e o que me acordou, aposto, não, não aposto, mas era com certeza um avião com motor de avioneta.






Os silêncios mais improváveis 
Flutuam nos incêndios do céu

Eu tenho de sair daqui
Tenho de saltar, não
Ficarei agarrado à rede 
Nem circunscrito 
Ao perímetro das indecências
Da cortina de rolo de massa
Onde imerge um prado de chicotes
Ao cheiro meu amor

A ração dos teus olhos
Não sustem as chuvas
Vou embora desenvolver 
Sou um regato selvagem
Por estranho que pareça 
Não um peixe de viveiro 
Preciso meter água preciso
De ir, respirar voar 

E se eu morrer? A primavera 
Morre sempre nos nossos lábios 
Meu amor e eu quiçá morto
Fique melhor.  Sabes amor
Não posso deixar vestir-me com 
As ondas dos areais 

E os sinos chamam 
E eu, minha querida 
Dispenso o chapéu 





Algum dia irei deixar-te com as oliveiras minha querida, mas, para já passei o corretor nos dedos cruzados da lua e durmo agora sem a chuva nos olhos na minha casa de cabeçais nos arredores do amarelo de girassol virado para o mar. Tenho ainda um alguidar de sangue nas artérias para arranjar e a visita na porta onde havemos de por dois rios um sol e uma flor a brilhar meu amor





Ela é a dona do meu co
-ração
E este é de toda a gente
O meu amor não é uma
Qualquer
Por muitos ares para onde eu
Decida mudar,  na realidade
O meu coração pertence-lhe
Ela é... É inegável e platónico
O meu coração é incorruptível
Ela é
Uma rainha






Tudo isto não é meu
Vem da quinta dos teus
Casados, da praia fluvial
Do eclipse solar da criança
Do colo da voz, da voz





Ele é um; o outsider
Filho, pai, avô. Es
-quece lembra tem
Guerra na mente
Paz no coração, ele
Creio piamente que 
Ama o amor





Ela vinha com facas já eu
Tinha na cabeça tesouras
E durante a luta pela liberdade 
Pela verdade ela foi laminando
As enfiadas que me cortavam
Quando as minas rebentaram
                       Fogo laranja





O mundo perdeu-se
Numa cadeira de luar
De águas de manjar
De qualquer forma 
O chão vasto era aquele 
Repetir de submissos
Sangrento desflorado
Que, não cabe num poema
Num tempo com tempo
De rosto infinito a desconstruir 





Chegaste como um monstro
E tinhas na voz a ternura
Feriste-me de morte com a tua
Doce inocência, e desde então 
Passei a amar um coração 
Surdo e cego perdido na doçura 
Luminosa que sempre imaginei
Para me levar os cansaços
Todos os cansaços tiranos
Se me ouvisses uivar meu amor





Eles não esperam, nós 
Crescemos e voamos e
É irrelevante como de
Onde vimos onde fomos

Poderias partilhar a tristeza 
O medo a raiva as ânsias 
Era suposto seres esperança 
E amor onde está uma rosa

Eles não esperam amor
É pura perda de tempo
E o teor o volume... Sinto
-me tão cavo no mundo desabitado

Tu não gostarás de cair
Quererás partir e se 
Acontecer lá estará alguém 
Para te enterrar. Eles não...

Nós crescemos e voamos. Sinto
-me, sim, tão
Cavo neste mundo desabitado 





É mais tudo
É mais tudo
Tudo é-me é-me
É-me
Estudo





Eu não sou o outro
Mas de fato sou
A esta hora este outro
Sem estímulo, motivo
Creio que no caminho
Que pari diria
De coração quase quase
Branco
Branco





Enquanto as casas exportam pratos transitórios
Moldo-me à mesa a vinho gelado
Repleto de bichinhos na mioleira sem pensar
Porque razão não tomei café hoje e não
É que não sinta amor, aquele mau caminho
A máquina de lavar murmura-me a falar disso
Mas agora o que me está na concavidade da alma
É a roupa para passar a ferro e o poema atado
A esticar a corda Amor
Triste norte duma bússola convexa





Um suposto peso 
Encolhido: Perdão 
Eu não quero incomodar
Queria apenas livrar-me
De mim






Confessas que és 
O sol e a chuva
E o vento às vezes
Não perdeste
Os olhos e recusas o brilho
Sonhaste com uma casa eu
Vi na noite escura
Muitos gatos
Senti uma vontade de ir 
Mais longe
Além da face oculta da lua
E onde está a humanidade!
Muito bem, há
Portas borboletas letras e;
Descobre tu
Onde está a humanidade?







Ouve-se silêncios
De preconceitos
De pedras nascidas
Lamentos do brilho vento 
Da prata oxidada
Das mantas de Satanás 
E tantos santos
Azuis construindo
Raposas ouriços 
Tudo em pedra para 
Amanhã 






Eu, toquei
A guitarra
Desafinou
É normal, e agora
Tenho de a afinar
Outra vez






Nascido sem cheiro
Foi peixe na serra
Sonhador na frescura da relva
Levou gravidezes a maternidades
Vidas que, lançaram trigo ao mar
Misturado com as cores
Puras de sois e luas. Eu também fui
Imortal e estou agora sentado como
Tu perto da última noite recordando
Cada natal e o erotismo da virgem 
Maria que me encantou






Esqueçam-me
Também vou
Esquecer mas não 
Esqueçam




Esta vida dava uma pintura azulada numa folha de papel reciclado, até porque na memória não tenho apenas um sacrífero mas um gato por lebre assanhado. Há dias assim. Noutros




Ah... abraçado por uma assinalável taciturnidade cujo ar não açoita não tortura nem chega sequer para pensar que padeço da toxicidade de uma triste tristeza aflitiva, como a moléstia ou achaque, mas por uma doce nostalgia, ainda que sem o coração que prazia, onde me acerto eloquente e melancólico sou vítima sem esperar flores. De outra forma não seria eu um semicondutor, mas uma perniciosa cópia infectada numa multidão de cópias alegres de maca... búzios em River Rock arrasando rosas.