As Salinas E O Vaso Do Quarto Amarelo, Textos de Alberto Moreira Ferreira




Nota: Este trabalho pode conter linguagem sensível.




Ficaste aí pendurado pelas vias aéreas
A alimentar o lago ao redor do pulmão
Como se não bastasse tens uma série
De remendos nas artérias danificadas
Durante o caminho duro, ascendente
Da cordilheira do atlas a leste dos rios
Que atravessam o deserto do Saara
Entre a tarde e o meio dia, ainda na
Esperança de chegares à tal, manhã
E aqueceres uma rosa, sem poderes
E sem bolsos no casaco de algodão
Portanto, sem sopro algum que te valha.
Não sabes se estás preparado para o que
Possa vir. E pendurado visitas a saudade
A escuridão, estás tenso, culpas-te como
Se relógios andassem para trás e pincéis
Pintassem a praia de novo, sem pedras
Mais resguardada e protegida. Estás aí
Pendurado, tens pó de tijolo na gola
Apetece-te chorar, e, devias falar disso.






Tornou-se num velho vaso de barro 
E crescem sombras no seu interior 
Não como ao peixe na rede lutando
Mas como ao ramo levado pela água
Ainda terreno de um outro desejo
Que não o de abraçar a escuridão 
E porque perdeu quem foi deveria
Virar-se, sacudir a toalha ou não -
Mais acordarei desta morte tecedeira
Retido nas sombras a esticar a corda
Consideravelmente ferido e envergonhado
Pelo cheiro a bolor da mobília do quarto
Incompleto






Dantes sem luz de nada
Fazia-me a pulseiras 
Tempos depois com luz
E tudo nem vos digo 
Que fazia nada, agora
Apanho chuva vou lapidando 






Apesar de tudo, nunca vi o amor
Como algo de somenos importância
A questão é que ensinaram-nos
Que há coisas mais importantes
Se eu lhe disser eu amo-te ela
Assusta-se e chove silêncios verdes
Coelhos
Como se errado fosse fazer caso de







O novo homem, o cão e o mensageiro
Agora com mais idade vê o imóvel
Tomar o lugar
Onde parei - O ouro verde onde assenta
O coral vermelho sangue azuleia
E tudo é mais novo mais pequeno mais gigante
Mais incertezas menos - assim é que é
Menos chama
Mais velho também é novo
Talvez haja mais que a papoila à espera no túmulo
No fim do sofrimento, no fim do prazer
No fim - enfim
Mais um copo - uma esperança
Concentrado na cor do açafrão
Onde estou, onde nunca estive e já estive
Acima do chão desaparecido
Olhando a lua de neve, e o ouriço com todos os seus espinhos






Tiro os olhos
Ponho-os de lado
E já não vejo
O  vermelho azul
Fazendo a barba 
Como o cego





Escrever é devolver a um credor o devido, e é carência, deslocação, é desassombrar assombrar abandono e amparo, eu escrevo para despedir descobrir aprender melhorar, escrever é como sexo, terapia alimentar, é ter memória conversar tomar consciência, exercitar, traz dor prazer e tantas outras sensações, mais tarde eu compreendo, escrever fomenta respeito e cuidado, é uma loucura. Escrever é como amar, o caminho mais difícil, mas vale a pena fazer o correto. Eu não escrevo por palavras, eu expresso-me pela própria vida






Para que serve seguir?
Para ser inativo e plantar o vaso
Fugir privar acomodar, inexistir
Quando ela morrer quem dirá
Ela não tinha tomates, dormia 
Nua com a gola de pêlo das furnas
Ou vazia entre os lençóis dobrados
Dependendo de onde estivesse
Dormia como os mortos para alcançar 
Nem ela sabe bem o quê, ninguém
Madalena tinha uma cara laroca
Como Ventura no parlamento discriminando
O cigano 
Duas trabalhadoras em prol da felicidade de; Ludere me putas
Eu não devia ter nascido 
Cristo 






Há força lucidez e amor no ato de andar e bloqueio a si mesmo no de seguir






Ao gato anfíbio prefixo Luso
Na fase larval
Importa aquele que dá graxa
A Timberlands no respaldo
Do círculo eternizando o pé
Rapado após chutar a águia 
Dissensual
Na procura de um raio de sol
Eu voltei-me para ela e disse:
É verdade a história
Que importa a conformidade 
Entre x e y
Se o vazio aceita o postulado!
Dizem que tem de ser sentido
Pois nós com o coração 
Olhos nos olhos rimos

E chapéu. O meu amor é indie
Gente






Adormeceu durante a espera
Nas impressões das mãos
Buscava nas pedras o vitruviano
A estrela de cinco pontas
As rochas quentes são pássaros mortos
E continua a mentir-se
Esta noite sou eu mesmo
Uma vida nova




Amar o mundo e querer estar nele dentro dos padrões é um exagero. Eu permito-me viver por educação e limpo-me, por exemplo, fazendo da raiva quando a sinto por A mais B surda




Escrevo para evitar o lugar do morto e não acomodar a própria sombra, deste modo privo o cão e a obstinação do herói. Escrevo, eu não escrevo, eu passo o bacalhau por azeite e bebo o vinho do chafariz dos canos 






E ser. Nada. Nada
Quanto baste no
Brilho da lua cheia






Cabeças atrás, ao relento
Anzóis espetados no céu
Corações à frente acorrer
Às cinco da manhã, os porcos
Mijam óxido de enxofre
Que é como alforfón
Para uma povoação de gatos
A leste das amarras
Para onde parecem querer voltar
A liberdade que conheço e prezo
Está agora na ponte ameaçada por
Mais uma ninhada de ratos invernais 
E gomos de laranja somos peso, água 
Métrica para a madeira
E no meio do azul noturno, cinzento 
Enquanto eu deixo crescer a barba
O futuro corta
Corta o vinho
A mão que quero





Procuramos, relutantes em, ver
Partimos para longe na procura
Do que está perto por descobrir







E sobre a verdade diria:
Dói me muito aqui, um
Homem morre
Todo aos bocadinhos 







É difícil não me lembrar que estou só
Como difícil é lembrar-me que estou
Só porque tenho estado sempre só. É
Difícil não sentir o frio como é difícil
Sentir o frio do apartamento. A verdadeira
Loucura é pintar um rio numa parede como
Não pintar um rio que se fecha por estar só 
Só somente só desiludido iludindo-se e só 
Se estou louco! Louco estou, ir mais longe 
Que a verdade é só 
Viver além da morte 





Eu não gosto de letras não gosto de estrelas no ar não gosto de vento nem de ver flores dançar. Eu não gosto de muita coisa. Não gosto e não gosto pronto. Gosto de avivar a cosmicidade do amor e respeito

Não gosto de corações e pulmões doentes. A primavera vem no próximo avião