Já disse e não disse
Que o encontro com a lua
Devolveu-me sonhos
E a esperança emocional
Trouxe-me até aqui
Não sei se é tarde, cedo nunca é certamente
Bendita loucura que se alojou em mim
De outra forma já tinha perdido
Matado-me morrido, doravante errado
Perdido o andar e o momento
Em que penso
Na mecânica no vigor na coragem no louvor
Entretanto purificava
Abria e fechava, e assim
O barco resgatado da luz
E pequeno a desaparecer
Como um gigante, arder
A deixar de ser visto
Há o momento enchente e depois
Eu vivia entre o mar e a serra
Via violetas no campo, era um poema
Cujo futuro nem sonhava, e havia sempre uma perda
Alguma coisa escondida por que
Eu não percebia
Tinha um comprido cabelo e lindos caracóis
Pele sã pouca coisa inocência vida no interior
Rebeldia uma gaita e mais nada. Ouve
Todos diziam à minha avó:
Que linda, é tão bonita a sua menina
Que não entendia
Mais valia dizerem
A sua neta parece tudo menos um pinguim
E é tão feio
Cá parece que a vida foi congelada. Aqui, neste lugar estigmatizado, de parcos recursos, sem um futuro brilhante, faz frio, e todos os parados andam, os que ainda conseguem andar, e eu que, ando nos sonhos sem parar, vejo-me grego para andar. Neste lugar igual a tantos, de exclusão, maioritariamente de subidas e descidas, aonde todos parecem gostar de macacos às costas e de cães pelas mãos, aonde impera a vaidade e o preconceito, onde ainda se morre de fome, aonde se acende e apaga, onde todos falam do coração e a razão, não vale a pena, aqui, onde cada vez mais se deixa de existir às mãos da solidão, de fato, parece que a vida foi congelada, ou então, estará na igreja, a pedir, a rezar
Meu amor, tu és a majestade em que eu puro ardo por respeito à natureza
Meu amor, tu és a rainha que me liberta e me prende pela paixão sem fim
Meu amor, tu és o próximo dia, esteja eu onde estiver
A magia da lua a liberdade do sol, meu amor
Que saudade, ai
Que prazer, e diante a água fria, meu amor, minha flor
Amor há que fazer
Hoje vago, tenho ossos nos pulmões
Que me afastam os olhos do tempo
Penso na esperança, o motivo do amor
Penso também no prazer que faz amar
E nas horas da sombra que se barbeava
Pela sua imponência, eram horas avulso
Penso no meu amor que tem outro amor
Penso nos barcos de porto em porto
Na casa, nas casas fora dos lugares
Em quem não sabe quem é por temer
E que as rochas passam, diria desoladas acaso
Estivesse despido
Não escondo o medo e ainda que diminuído sobre o nada tudo
Soube-me a vida
Será escassez, opulência
Se soubesse abria portas
Dirigiu-se ao mar, e o mar
Tinha en ovos para acorrer
Buscou nos céus e os céus
Viviam na realidade dos números
Foi ao encontro da terra
E a terra rodava suspensa no ar
Ela, precoce amadureceu
Instalou-se o vento norte
O sono, suava água de bétulas
No lençol tecido de pedras geladas
E o planeta cortado no grito sentia
A noite, já era tarde
Este coração ainda é terno e canta bem, não ferve em casca de limão e cravo da índia e nem sabe muito bem como lidar com o amor, refletindo no espelho dourado sensibilizando-se sobre as novas cores disponíveis, numa limpeza profunda, isento da raiva e do ódio que nos extingue, aceitando a mudança, o ritmo de circulação e a saga da luta no último porto, do último eu, que ainda sonha, razão pela qual o faz despreocupado com as novas cores da red carpet dress. Este coração continua a trabalhar, a importar o anel a maçã, a controlar a temperatura, a presidir ao último porto sem consumismo desnecessário educando toda a vida do interior. Este coração reflorestou-se combatendo as alterações climáticas e a erosão, a secura do bravo, dos mundos, dos barcos, e hoje no último porto depois de ter abraçado todos os portos, todos os eus, todos os mundos por onde passou e ter recusado caminhos e pontes e ter procurado uma rosa branca na black magic híbrida de chá, ainda anda, navega, ainda é terno e canta bem. O amor.
Nas ondas do candeeiro
Vês o mar constritivo
No interior: hás de amar as rosas
Por que tudo o resto é transitório
A máquina queima-te por dentro
Mas, depois choras, evocas a beleza
E não queres
Que os nossos filhos rezem
Calas-te e foges, foges com a língua
E os dentes - Descobriste
Na ciência que ninguém morre de amor
E eu estou a morrer
Ainda tenho a cama quente e afinal é possível
Sinto-te fugir como todos os dias
E tenho para te dizer
Sim, é possível morrer de amor
A humanidade passou no comboio
Tu vais de avião eles são levados nos automóveis
A liberdade implica compromisso, exige labuta
A liberdade requer abertura e as noites são ambíguas de escuridão
Eu era menino e tinha falta de cheiro
Palrava normalmente como as primaveras, agora aceito que a noite ergue paredes
Por vezes sento-me no escuro como um pássaro morto
Às vezes ainda vou à janela ver a humanidade que passa no comboio
E sei que a liberdade carece de cuidados, será uma obra-prima
Num plural singular. A mais bela. Menina
Na terra só há respeitosas pedras
Umas duma cor outras de outras cores
Não sei se haverá imparciais
Se houver serão pedras raras
À exceção das raras as pedras deitam-se ao sol e recolhem ao almoço
Há exceção das imparciais e todas as outras vivem na mais colossal distância
Eu devia amar as pedras como se houvesse esperança
Como se amar pedras valiosas fizesse alguma diferença
Talvez haja pedras raras, não sei
Na terra só há pedras
O dispêndio da economia
Velhas pedras sob os abrigos das casas
Como se o amor fosse pedra e a solidão
Que se enraizou como objecto de pedra
Fosse pedra como os números de pedra
Tal a moral de pedra pela pedra criada
O mar é de pedra o rio é de pedra
A montanha é de pedra, o mundo
É todo de pedra, um saco de areia
Pedra malvada, como deus à defesa
Que horror, tudo é pedra e o produto
Da pedra pressupõe este de pedra
A dias do natal, a pensar no amor
Deixo o amor no jardim
A palavra guardada
E parto para o soco
Esta é a verdade total
Eu não inventei nada
Vivi a alegria a morte
Toda a hora que vale a pena viver
Fui árvore, ninho, ave, o mais alto
Que pude fui
Amans, -antis. Um dia
Vive-se e um dia
Parte-se para o soco
Nestes dias de catarse sou alérgico ao ar que me rodeia, inquieta-me o caos onde aprendo a higienizar, mergulho nas minhas tristezas, nas dúvidas, sinto-me oprimido com a economia e uma certa excitação, assaltam-me ventos e ecos, e a imagem de um corpo erótico numa visão de sonho, a sombra vai vagando, preciso do perfume da lua, aquela cujo sexo me derrete, e só aquela, adormeço e acordo, levanto-me e bebo o isotónico. Estes são dias que me transcendem e nutre-me o que falta. O amor.
A madrugada vai alta
A noite fria é quente
Quanto mais o sol chama
Mais a lua foge
No céu murmura um fecho
De pepitas de prata e ouro
Há a questão do preto: Por
Ocasião dos cansaços
Que interessa o amor
Quid deceat, quid non
No canto do cisne branco
Bastar-se e compreender
Profundo é o amor
Manchas nos pulmões e no céu
O automóvel no sidepark estacionado
O corte na pele foi a Gillette a barbear
As vistas no lençol azul do mar
Sinto a noite, a falta de apetite
Sinto pelos sentidos, pelos cegos
Falta o abraço aos olhos ermitas
Afastados das sete horas e a ternura
Chove turistas nos telhados
E souvenirs lembram-me
Que nunca imaginei que assim fosse
Depois do infinito, depositada a arma
Na estação da escuridão visões aconteciam
Aí o pálido azul dominado pelo frágil, pelo desprotegido
Entorpecido pelo silêncio sombrio da floresta
Cantava a foice e o instrumento de percussão de cabeça pesada
O fogo preso a árvore estropiada
É a cadeira onde estamos sentados
Vai até onde o cão lambe as suas feridas
As lágrimas infectam
E ficamos na praia com a areia fria
Como as ovelhas na hora de ficar
Que nunca viram
O rebentamento das ondas, o desabir
Do inocente, do cão
Cuja inocência toca o sol da mulher a dias e a pureza
Canta a liberdade sem saber
Às vezes entre sombras vejo um futuro
Mais que bons maus poemas
Mais que ideologias mais que efemeridade
Às vezes na primavera vejo pontes
E no fim do verão lá aparecem os nódulos
Do açafrão na terra molhada
Como cheguei eu aqui carregado de lâmpadas
Como explicar a sombra da super porta com esta idade
Numa ideia peregrina, romancesca
Adequada, todo o amor impossível
Não desaparece e apenas se afasta
Antes demais esperava ver a loiça
Tu és o que de mais divino,
A única brancura da minha vida,
A fronteira do meu delírio
Contigo tenho aprendido a respirar,
A deixar a penumbra, a extinguir
A noite, a sombra que me roubava
O ser, infinito
Tu és a magnificência docemente
Transformadora deste que se vai
Despindo respirando e conhecendo um
Rosa fogo, flor, o teu sorriso é o melhor
Motivo para um sol nascer e adiar
O ermo do entardecer, pelo blue sunset,
Obrigado menina, obrigado amor
Deitamos fora a criança
Porque achamos que não podemos
Sustentar a criança
Porque a cidade quer um arbusto
Eu nunca fiz uma maldade tão grande
Dentro do bolso tenho uma coisa engraçada
Que choca com portas telhados e braços
A criança que me tem dado muito trabalho
De quem não consigo nem me quero livrar
Eu sei que andam nos céus à pesca
Eu canso-me de deitar livros ao lixo
Não entendo porque são tão chatos
Adultos cansados tristes e aborrecidos
Enfim, certos livros estão melhor no lixo
Mas a criança, a criança feliz entre os pingos
Continuará à minha guarda
Quiçá para sempre (espero)
No bolso a pegar comigo
Que andas tu a procurar
A tristeza, uma bomba transitória
A felicidade uma boa efemeridade
Olha o mar, não é tão imenso assim
A vida tem princípio meio e fim
A eternidade é como o tal olhar
Que se perde atrás das nuvens
E desaparece no dobrar dos sinos
Quando nada mais resta a vida
